Filhos
do Rev. Samuel e Susana Wesley, João
e Carlos Wesley, os fundadores daquilo que ficou conhecido
como Metodismo, nasceram respectivamente em 1703 e
1707 em Epworth, localidade rural no Leste da Inglaterra
e se mantiveram fiéis à Igreja da Inglaterra
enquanto viveram.
Para se ter uma idéia
do ambiente religioso na Inglaterra dos séculos
XVI e XVII, podemos mencionar alguns fatos. Enquanto
a reforma repercutia
nos países da Europa no século XVI, a
Igreja da Inglaterra estava se separando da Católica.
Enquanto isso, o Movimento
Puritano 1 que
crescia “procurava ‘purificar’ o
Livro de Oração Comum de seus resquícios ‘romanistas’ para
transformar a Igreja da Inglaterra em uma Igreja semelhante à de
Calvino, em Genebra”2 , já que, embora
sofresse as influências do Calvinismo, a Igreja
da Inglaterra ainda mantinha uma liturgia muito parecida à liturgia
Católica.
Já no século
XVII, com a execução
do rei Carlos I após uma guerra civil, a Inglaterra
se viu governada pelo Parlamento e pelos puritanos
que o apoiavam. Onze anos mais tarde, em 1660, a monarquia
foi restaurada e o que se seguiu foi um período
de repressão aos dissidentes ou não-anglicanos,
fazendo com que estes perdessem suas paróquias.
Esses eventos contribuíram para uma decadência
religiosa geral na Inglaterra no século XVII
e início do século XVIII (...). Assim,
o governo se esforçava para que todos os ingleses
aderissem à doutrina, liturgia e práticas
da Igreja da Inglaterra, a Igreja Oficial ou Anglicana.3
Susana e Samuel Wesley
estavam contados entre os dissidentes, mas voltaram à Igreja
da Inglaterra quando o desmoronamento da teologia
puritana, que chegou mesmo
a negar a divindade de Cristo, e o seu forte moralismo
começaram a se tornar mais evidentes. Contudo,
quando passaram à Igreja da Inglaterra, Susana
e Samuel não abandonaram o que havia de positivo
em sua herança puritana, como a integridade
moral da vida, um culto mais livre e “vivo”,
uma boa dose de calvinismo em sua teologia 4 ,
entre outros 5. Com a opção feita por
Samuel e Susana, Carlos e João Wesley foram
criados dentro da tradição da Igreja
da Inglaterra, da qual mais tarde foram ordenados ministros
e jamais
se separaram.
João Wesley, bem como Carlos, preparou-se para
o exercício do ministério em Oxford,
onde se matriculou no College da Christ Church em 1720.
Oxford representava uma tradição familiar,
já que Bartolomeu Wesley, seu bisavô,
João Wesley, seu avô, Samuel, seu pai,
e também seu irmão mais velho, Samuel
Filho, haviam sido preparados para o ministério
ali. Mais tarde, João Wesley se tornou professor área
de Novo Testamento em grego em Oxford, além
de coordenar os debates estudantis.
O grupo dos metodistas
surgiu exatamente nesse ambiente universitário
do qual Wesley era parte. Trata-se do que inicialmente
era conhecido pelo apelido de “O
Clube Santo”, uma sociedade formada por estudantes
membros da Igreja da Inglaterra (Oxford não
admitia “dissidentes”) e que queriam participar
ativa e inteligentemente da adoração
em sua Igreja e viver a sua vida cristã com
seriedade e propósito.6
Ao contrário
do que se tende a pensar, foi Carlos e não
João Wesley quem primeiro
organizou o grupo desses estudantes em Oxford, de modo
que alguns historiadores reconhecem Carlos Wesley como
o primeiro metodista. Entre os anos de 1727 e 1729,
João Wesley saiu de Oxford para ajudar ao pai
em sua paróquia. Contudo, no verão de
1729 ficou dois meses em Oxford, passando boa parte
do tempo com esse grupo, ao qual ele gostava de chamar
de “Metodistas de Oxford”. Ao retornar às
atividades da Universidade em novembro de 1729, Wesley
acabou por assumir a liderança do grupo que
havia nascido dos esforços de Carlos.7
As atividades dos Metodistas
de Oxford ou Clube Santo eram simples, mas carregadas
de muita seriedade.
Sob
a orientação do professor João
Wesley, eles se reuniam freqüentemente para o
estudo do Novo Testamento Grego. Liam literatura clássica,
assistiam ao culto dominical da Igreja da Inglaterra
e comungavam; jejuavam às quartas e sextas-feiras à maneira
da antiga Igreja , a Católica; examinavam e
avaliavam com freqüência sua vida íntima.
Além disso, o próprio Wesley chegou a
elaborar orações apropriadas que orientavam
o grupo em suas devocionais diárias. Tempos
depois, essas orações foram publicadas
em forma de um livro devocional. 8
O grupo era coeso e suas atividades sempre conjuntas,
com disciplina e método, davam o tom de unidade
ao Clube Santo. No entanto, suas atividades não
permaneceram restritas ao benefício dos membros
do grupo. Grande parte do esquema de ação
social dos metodistas era planejado por um jovem irlandês,
William Morgan, que já há algum tempo
vinha desenvolvendo atividades beneficentes e, graças à sua
insistência para que os irmãos Wesley
tomassem parte nessa tarefa, o trabalho passou a englobar
visitas regulares à Prisão do Castelo,
cuidados com pobres e idosos, auxílio aos enfermos
das paróquias de Oxford e atendimento aos meninos
de meninas de rua, que vagavam sem cuidados ou escola.
Para estes últimos, foram contratadas professoras
e estas eram pagas pelas economias do “Clube
Santo”.
Tendo o caminho aberto
novamente por Mogan, em 1730 o grupo expandiu suas
atividades, incluindo as pessoas
encarceradas na prisão da cidade no North Gate
(Bocardo). Morgan também começou a trazer
as crianças das famílias pobres em Oxford,
pelo menos já no começo da primavera
em 1731. Quando o amigo irlandês precisou deixar
a cidade para se recuperar de uma doença, Wesley
percebeu a necessidade de uma organização
permanente. Por isso, em junho de 1731 a Senhora Plat
foi contratada para cuidar das crianças, das
quais os metodistas continuaram a ter um ativo interesse
e participação no seu progresso. 9
Embora suas ações
dentro da comunidade tivessem dado certa notoriedade
ao grupo, a religião
sempre era ridicularizada pelos colegas da universidade. “Clube
Santo” e alguns outros mais foram apelidos irônicos
dados ao grupo por parte dos que dele zombavam proclamando
sempre o seu esforço para o bem, tais como Clube
Religioso, Traças da Bíblia, Homens da
Superrogação. O grupo chegou mesmo a
ganhar a reputação de serem, como o próprio
Wesley relatara a seu pai, “amigos somente daqueles
que são esquisitos como nós”.10
Em 1731 a atenção
de João Wesley
esteve inteiramente voltada para o que acontecia em
Oxford. Suas constantes viagens para pregar nas paróquias
rurais foram cessadas, de modo que ele chegou a vender
o cavalo que havia comprado exclusivamente para essa
atividade um ano antes. Na frente do seu diário
foi anotado o programa semanal de visitas daquele ano:
segunda-feira, Bocardo; terça-feira, Castelo;
quarta-feira, crianças; quinta-feira, Castelo;
sexta-feira, Bocardo; sábado, Castelo; domingo,
pobres e idosos. O crescente interesse de Wesley pelos
outros começava a atraí-lo para além
de seu desejo de salvação pessoal. 11
Em 1732, o grupo dos
Metodistas de Oxford sofreu uma dramática
mudança de pessoal. Com a partida
de Morgan para a Irlanda em razão de seu enfraquecimento
pela enfermidade, somada à partida de outros
integrantes, João e Carlos Wesley ficaram como
os únicos participantes do grupo inicial. Por
essa ocasião Wesley conheceu John Clayton, que
compartilhava dos mesmos interesses sociais que Morgan
e acabou associando-se aos Metodistas de Oxford. Clayton,
que também tinha um grupo no Brasenose College,
apresentou Wesley a novas amizades e contatos. Filho
de um livreiro de Manchester, Clayton ajudou Wesley
a se relacionar com editores e livreiros em Oxford,
além de tê-lo introduzido num novo círculo
de amigos em Londres, que incluía patrocinadores
influentes das sociedades religiosas. John Phillips,
uma força impulsionadora da SPCK, tornou-se
um contribuinte valioso para a causa metodista em Oxford.
Wesley, por sua vez, comprou do catálogo da
Sociedade muitos tratados, Bíblias e outras
obras para distribuição entre seus amigos.
Sua vida e pensamento foram influenciados por sua ligação
com a Sociedade, da qual se tornou “membro correspondente” em
1732. 12
Quando Clayton deixou a Universidade no outono de
1732, chegou a Wesley a notícia da morte de
William Morgan e o boato que se havia espalhado de
que a sua morte tinha sido provocada pelo estilo de
vida metodista. Para defender os metodistas das calúnias,
Wesley pregou um sermão na Igreja de Santa Maria
em que delineou a base lógica de sua teologia
e também escreveu uma carta ao pai de Morgan.
Essa carta tornou-se um documento de particular importância
na defesa do grupo diante de amigos e inimigos durante
todo o outono e inverno.
João Wesley
afirmou que o metodismo como movimento maior nasceu
na Universidade, com os Metodistas de
Oxford ou Clube Santo. Por essa razão, o metodismo
que se tornou popular sempre carregou consigo as marcas
clássicas da sua origem: piedade e saber. O
ideal de Wesley era unir a profunda piedade bíblica
ao saber sólido ou, como ele mesmo costumava
dizer, “é preciso unir ciência e
religião, há muito tempo separadas!” Mesmo
dos seus pregadores leigos, Wesley exigia fundamentação
com seis horas diárias de leitura. O equilíbrio
em Wesley, visto já desde o Clube Santo, consistia
e “unir a piedade ao saber, ao serviço, à humanidade
e a evangelização à ação
social!” 13
Para aprofundar a leitura sobre o tema