2005 nº 01
Samuel Wesley
Sasana Wesley
João Wesley
Carlos Wesley

 

 

 

  João Wesley e o Metodismo – Um Resumo Biográfico e Histórico

Parte I: Os “Metodistas de Oxford”

Filhos do Rev. Samuel e Susana Wesley, João e Carlos Wesley, os fundadores daquilo que ficou conhecido como Metodismo, nasceram respectivamente em 1703 e 1707 em Epworth, localidade rural no Leste da Inglaterra e se mantiveram fiéis à Igreja da Inglaterra enquanto viveram.

Para se ter uma idéia do ambiente religioso na Inglaterra dos séculos XVI e XVII, podemos mencionar alguns fatos. Enquanto a reforma repercutia nos países da Europa no século XVI, a Igreja da Inglaterra estava se separando da Católica. Enquanto isso, o Movimento Puritano 1 que crescia “procurava ‘purificar’ o Livro de Oração Comum de seus resquícios ‘romanistas’ para transformar a Igreja da Inglaterra em uma Igreja semelhante à de Calvino, em Genebra”2 , já que, embora sofresse as influências do Calvinismo, a Igreja da Inglaterra ainda mantinha uma liturgia muito parecida à liturgia Católica.

Já no século XVII, com a execução do rei Carlos I após uma guerra civil, a Inglaterra se viu governada pelo Parlamento e pelos puritanos que o apoiavam. Onze anos mais tarde, em 1660, a monarquia foi restaurada e o que se seguiu foi um período de repressão aos dissidentes ou não-anglicanos, fazendo com que estes perdessem suas paróquias. Esses eventos contribuíram para uma decadência religiosa geral na Inglaterra no século XVII e início do século XVIII (...). Assim, o governo se esforçava para que todos os ingleses aderissem à doutrina, liturgia e práticas da Igreja da Inglaterra, a Igreja Oficial ou Anglicana.3

Susana e Samuel Wesley estavam contados entre os dissidentes, mas voltaram à Igreja da Inglaterra quando o desmoronamento da teologia puritana, que chegou mesmo a negar a divindade de Cristo, e o seu forte moralismo começaram a se tornar mais evidentes. Contudo, quando passaram à Igreja da Inglaterra, Susana e Samuel não abandonaram o que havia de positivo em sua herança puritana, como a integridade moral da vida, um culto mais livre e “vivo”, uma boa dose de calvinismo em sua teologia 4 , entre outros 5. Com a opção feita por Samuel e Susana, Carlos e João Wesley foram criados dentro da tradição da Igreja da Inglaterra, da qual mais tarde foram ordenados ministros e jamais se separaram.

João Wesley, bem como Carlos, preparou-se para o exercício do ministério em Oxford, onde se matriculou no College da Christ Church em 1720. Oxford representava uma tradição familiar, já que Bartolomeu Wesley, seu bisavô, João Wesley, seu avô, Samuel, seu pai, e também seu irmão mais velho, Samuel Filho, haviam sido preparados para o ministério ali. Mais tarde, João Wesley se tornou professor área de Novo Testamento em grego em Oxford, além de coordenar os debates estudantis.

O grupo dos metodistas surgiu exatamente nesse ambiente universitário do qual Wesley era parte. Trata-se do que inicialmente era conhecido pelo apelido de “O Clube Santo”, uma sociedade formada por estudantes membros da Igreja da Inglaterra (Oxford não admitia “dissidentes”) e que queriam participar ativa e inteligentemente da adoração em sua Igreja e viver a sua vida cristã com seriedade e propósito.6

Ao contrário do que se tende a pensar, foi Carlos e não João Wesley quem primeiro organizou o grupo desses estudantes em Oxford, de modo que alguns historiadores reconhecem Carlos Wesley como o primeiro metodista. Entre os anos de 1727 e 1729, João Wesley saiu de Oxford para ajudar ao pai em sua paróquia. Contudo, no verão de 1729 ficou dois meses em Oxford, passando boa parte do tempo com esse grupo, ao qual ele gostava de chamar de “Metodistas de Oxford”. Ao retornar às atividades da Universidade em novembro de 1729, Wesley acabou por assumir a liderança do grupo que havia nascido dos esforços de Carlos.7

As atividades dos Metodistas de Oxford ou Clube Santo eram simples, mas carregadas de muita seriedade. Sob a orientação do professor João Wesley, eles se reuniam freqüentemente para o estudo do Novo Testamento Grego. Liam literatura clássica, assistiam ao culto dominical da Igreja da Inglaterra e comungavam; jejuavam às quartas e sextas-feiras à maneira da antiga Igreja , a Católica; examinavam e avaliavam com freqüência sua vida íntima. Além disso, o próprio Wesley chegou a elaborar orações apropriadas que orientavam o grupo em suas devocionais diárias. Tempos depois, essas orações foram publicadas em forma de um livro devocional. 8

O grupo era coeso e suas atividades sempre conjuntas, com disciplina e método, davam o tom de unidade ao Clube Santo. No entanto, suas atividades não permaneceram restritas ao benefício dos membros do grupo. Grande parte do esquema de ação social dos metodistas era planejado por um jovem irlandês, William Morgan, que já há algum tempo vinha desenvolvendo atividades beneficentes e, graças à sua insistência para que os irmãos Wesley tomassem parte nessa tarefa, o trabalho passou a englobar visitas regulares à Prisão do Castelo, cuidados com pobres e idosos, auxílio aos enfermos das paróquias de Oxford e atendimento aos meninos de meninas de rua, que vagavam sem cuidados ou escola. Para estes últimos, foram contratadas professoras e estas eram pagas pelas economias do “Clube Santo”.

Tendo o caminho aberto novamente por Mogan, em 1730 o grupo expandiu suas atividades, incluindo as pessoas encarceradas na prisão da cidade no North Gate (Bocardo). Morgan também começou a trazer as crianças das famílias pobres em Oxford, pelo menos já no começo da primavera em 1731. Quando o amigo irlandês precisou deixar a cidade para se recuperar de uma doença, Wesley percebeu a necessidade de uma organização permanente. Por isso, em junho de 1731 a Senhora Plat foi contratada para cuidar das crianças, das quais os metodistas continuaram a ter um ativo interesse e participação no seu progresso. 9

Embora suas ações dentro da comunidade tivessem dado certa notoriedade ao grupo, a religião sempre era ridicularizada pelos colegas da universidade. “Clube Santo” e alguns outros mais foram apelidos irônicos dados ao grupo por parte dos que dele zombavam proclamando sempre o seu esforço para o bem, tais como Clube Religioso, Traças da Bíblia, Homens da Superrogação. O grupo chegou mesmo a ganhar a reputação de serem, como o próprio Wesley relatara a seu pai, “amigos somente daqueles que são esquisitos como nós”.10

Em 1731 a atenção de João Wesley esteve inteiramente voltada para o que acontecia em Oxford. Suas constantes viagens para pregar nas paróquias rurais foram cessadas, de modo que ele chegou a vender o cavalo que havia comprado exclusivamente para essa atividade um ano antes. Na frente do seu diário foi anotado o programa semanal de visitas daquele ano: segunda-feira, Bocardo; terça-feira, Castelo; quarta-feira, crianças; quinta-feira, Castelo; sexta-feira, Bocardo; sábado, Castelo; domingo, pobres e idosos. O crescente interesse de Wesley pelos outros começava a atraí-lo para além de seu desejo de salvação pessoal. 11

Em 1732, o grupo dos Metodistas de Oxford sofreu uma dramática mudança de pessoal. Com a partida de Morgan para a Irlanda em razão de seu enfraquecimento pela enfermidade, somada à partida de outros integrantes, João e Carlos Wesley ficaram como os únicos participantes do grupo inicial. Por essa ocasião Wesley conheceu John Clayton, que compartilhava dos mesmos interesses sociais que Morgan e acabou associando-se aos Metodistas de Oxford. Clayton, que também tinha um grupo no Brasenose College, apresentou Wesley a novas amizades e contatos. Filho de um livreiro de Manchester, Clayton ajudou Wesley a se relacionar com editores e livreiros em Oxford, além de tê-lo introduzido num novo círculo de amigos em Londres, que incluía patrocinadores influentes das sociedades religiosas. John Phillips, uma força impulsionadora da SPCK, tornou-se um contribuinte valioso para a causa metodista em Oxford. Wesley, por sua vez, comprou do catálogo da Sociedade muitos tratados, Bíblias e outras obras para distribuição entre seus amigos. Sua vida e pensamento foram influenciados por sua ligação com a Sociedade, da qual se tornou “membro correspondente” em 1732. 12

Quando Clayton deixou a Universidade no outono de 1732, chegou a Wesley a notícia da morte de William Morgan e o boato que se havia espalhado de que a sua morte tinha sido provocada pelo estilo de vida metodista. Para defender os metodistas das calúnias, Wesley pregou um sermão na Igreja de Santa Maria em que delineou a base lógica de sua teologia e também escreveu uma carta ao pai de Morgan. Essa carta tornou-se um documento de particular importância na defesa do grupo diante de amigos e inimigos durante todo o outono e inverno.

João Wesley afirmou que o metodismo como movimento maior nasceu na Universidade, com os Metodistas de Oxford ou Clube Santo. Por essa razão, o metodismo que se tornou popular sempre carregou consigo as marcas clássicas da sua origem: piedade e saber. O ideal de Wesley era unir a profunda piedade bíblica ao saber sólido ou, como ele mesmo costumava dizer, “é preciso unir ciência e religião, há muito tempo separadas!” Mesmo dos seus pregadores leigos, Wesley exigia fundamentação com seis horas diárias de leitura. O equilíbrio em Wesley, visto já desde o Clube Santo, consistia e “unir a piedade ao saber, ao serviço, à humanidade e a evangelização à ação social!” 13

 

Para aprofundar a leitura sobre o tema

REILY, Duncan Alexander. Momentos decisivos do Metodismo. São Paulo, Imprensa Metodista, 1991. (Col. Metodismo).

HEITZENRATER, Richard P. Wesley e o povo chamado metodista. São Bernardo do Campo/Rio de Janeiro, Editeo/Pastoral Bennett, 1996.

CAMINHANDO: Revista da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista. Vol. 8, n. 12, 2° semestre de 2003. São Bernardo do Campo, Editeo/Umesp, 2003. (Edição especial comemorativa dos 300 anos de J. Wesley).

Por Elizângela Soares

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1 O putitanismo foi um movimento surgido no final do século XVI e que pretendia “purificar” a Igreja da Inglaterra dos elementos católicos que ainda estavam presentes nela, especialmente na liturgia: o Livro de Oração Comum. Os puritanos também foram chamados “dissidentes” porque dissidiam ou divergiam da Igreja Oficial. Em termos mais modernos, passaram a se subdividir em três denominações: congregacionais, presbiterianos e batistas.

2 REILY, Duncan Alexander. Momentos decisivos do Metodismo. São Paulo, Imprensa Metodista, 1991. (Col. Metodismo). p. 12.

3 Idem, p. 12-13.

4 João Wesley costumava dizer que uma diferença da espessura de um fio de cabelo o separava do calvinismo (Cf. Reily, p. 15).

5 Ibid., p. 15.

6 Ibid., p. 25.

7 Ibid.

8 Ibid., p. 26.

9 HEITZENRATER, Richard P. Wesley e o povo chamado metodista. São Bernardo do Campo/Rio de Janeiro, Editeo/Pastoral Bennett, 1996. p. 41-42.

10 Idem, p. 41.

11 Ibid.

12 Ibid., p. 44.

13 REILY, Momentos decisivos do Metodismo, p. 27.